Os Cobras


Mulheres falando grosso

O Dia Internacional da Mulher, a data mais machista do calendário, traz sempre mais ou menos aquele mesmo roteiro: chefes dando flores para secretárias (elas também ganham no Dia da Secretária), manifestações de políticos e sindicalistas que vivem do voto feminista, alguém homenageando Luz del Fuego, etc. Em meio a esse monte de esmolas morais, das quais as mulheres evidentemente não precisam, surgem também as velhas tentativas de se transformar a condição feminina em ideologia. Este ano, apareceram algumas que quase revogam as leis da mãe natureza.
Jorge Ben tinha saudade do tempo em que todo dia era dia de índio, na sua canção-manifesto sobre o famigerado 19 de abril. Procura-se um(a) compositor(a) de peito (literalmente ou não) para pedir a libertação das mulheres da “sua” data, o dia marcado para o mundo ser bonzinho com elas. Talvez fosse tarefa para uma Cássia Eller ou uma Janis Joplin, mas deve haver alguma voz ainda viva capaz de dar um basta a esse machismo feminista: mais da metade da humanidade não pode aceitar ser tratada como minoria.
O dia 8 de março representa o que o feminismo tem de mais arcaico – e, principalmente, de mais débil: a idéia da mulher como categoria, a noção de que seu espaço existencial é o gueto. É a velha história da tentativa de demonstração de força que acaba denotando fraqueza. Nada mais constrangedor do que a linha adotada pela ex-prefeita Marta Suplicy na campanha eleitoral. À medida que a eleição ia se aproximando, e as pesquisas confirmavam sua desvantagem para o adversário, Marta passou a denunciar “uma onda de preconceito” contra ela.
Por mais que se perguntasse, ninguém conseguia saber direito a que ela se referia. Afinal, fora eleita por aquela mesma São Paulo quatro anos antes, e seu governo era inclusive bem avaliado pela população. Na dúvida, na iminência da derrota, Marta caíra na tentação de dizer que estava sendo criticada e rejeitada por ser mulher. Dava a entender que estava sendo punida por ser tão sincera, tão humana e não ter todos os números na cabeça – supostos efeitos colaterais da condição feminina. Um papel lamentável.
É esse feminismo de resultados, com data marcada, que parece cada vez mais um reduto para fracassos e frustrações. Não há nada de afirmativo nele. As grandes conquistas femininas nunca estiveram tão distantes desse script de Dia Internacional e demarcações ideológicas afins. A própria Marta Suplicy é um belo exemplo de afirmação feminina sadia. Tornou-se um sucesso enquanto foi mulherão, fracassou quando refugiou-se no figurino de mulherzinha.
A exemplo do que algumas correntes políticas tentam fazer com o orgulho negro, transformando-o numa bandeira de guerra, a redução da condição feminina a uma categoria – com suas cotas, datas e outras concessões – serve essencialmente a um espírito reativo e dicotômico. Adão e Eva vira um grande duelo de capa e espada, uma eterna busca da melhor vingança contra o sexo oposto. E tome sociologia sexista no Dia Internacional da Mulher.
Na nova safra de idéias dessa estirpe, destacam-se as que visam a cobrar dos homens “o ônus da reprodução”. Não se trata – ainda – de exigir que os machões engravidem, mas a coisa não fica tão distante disso. Existe uma ala feminista achando que a geração do bebê toma tempo demais da mulher, enquanto o homem, esse espertalhão, fica flanando solto por aí. Admite que os nove meses são inevitáveis, mas alega que, a partir daí, o macho pode e deve pagar uma espécie de tributo ao tempo perdido da fêmea.
A coisa parece um pouco complicada, mas se refere basicamente ao período pós-parto, aquele que coincide com a chamada licença maternidade (tinha que ter questão trabalhista no meio). A tese é mais ou menos a seguinte: feito o parto, homem e mulher passam a ser iguais perante o bebê. Ela, que já carregou peso um tempão, agora sai para a vida. Ele, que não fez (quase) nada, que enfrente o seu período de clausura e segure a onda do recém-nascido. Tudo perfeitamente amparado por uma licença paternidade devidamente revista e ampliada, para desmontar os álibis do homem retrógrado e garantir a liberdade da mulher moderna.
A novidade tem tudo para dar origem a uma nova política pública, até porque dificilmente a bancada dos recém-nascidos conseguirá verbalizar algum argumento em contrário. Se conseguisse, talvez ponderasse que a classe (os bebês de colo) não abre mão do chamego materno por no mínimo 90 dias, que os itens “cheiro de mãe”, “colo de mãe” e “calor de mãe” são inegociáveis, que topariam transigir no máximo sobre a problemática das chupetas. Sem contar as restrições severas que a bancada das fraldas provavelmente apresentaria à aptidão dos pais no item “amamentação”.
Quando a reforma agrária voltou à agenda brasileira, no embalo da novela “O rei do gado”, o Movimento dos Sem-Terra chegava ao seu auge. Recebidos pela primeira vez no Palácio do Planalto, os líderes do MST saíram contrariados. O governo concordara com o seu cronograma de assentamentos, mas não garantia o fim das grandes propriedades. O MST admitia, então, que não lhe bastava conseguir terra para todos. Era preciso punir os fazendeiros.
Eis uma sugestão interessante para o movimento feminista: doar o dia 8 de março para os sem-terra e, de quebra, libertar-se da obsessão pela revanche. Seria um adeus simbólico ao espírito de gueto, um golpe na cadeia perpétua de mágoas. Uma rosa voltaria a ser uma rosa, e todo dia voltaria a ser dia da mulher. (Guilherme Fiúza, 16.03.2005, em http://nominimo.ibest.com.br/notitia/servlet/newstorm.notitia.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=5&textCode=15861¤tDate=1110942060000)

 

                                  



Escrito por Karla Lima às 17h30
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"I have merely offered my opinions. If they differ from others, well, I prefer being wrong in my own way to being right in someone else's". Yevgeny Zamyatin, 1918.Yevgeny Ivanovich Zamyatin nasceu em Lebedian, União Soviética, em 1 de Fevereiro de 1884. Ficou famoso pelo romance "Nós", história de um futuro distópico que influenciou "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, "1984", de George Orwell e "Anthem", de Ayn Rand. Zamyatin também escreveu vários contos de crítica satírica ao regime comunista russo. Estudou engenharia naval em São Petersburgo e na Finlândia. Começou a escrever ficção como passatempo. Em 1916 foi para a Inglaterra supervisionar a construção de um quebra-gelos e posteriormente escreveu "The Islanders", satirizando o modo de vida inglês. Ao regressar à Rússia, escreveu "Ujezdnoje" (Coisas de Província), que satiriza a vida numa pequena cidade russa. Depois da Revolução de 1917, editou revistas, deu palestras e editou traduções de Jack London, H. G. Wells e outros. Zamyatin apoiou a Revolução, mas tornou-se crítico da censura. Seus trabalhos foram-se tornando cada vez mais críticos do regime e cada vez mais suprimidos. Por fim, foram banidos e ele foi proibido de publicar. Acabou por obter a autorização de Stálin para abandonar a Rússia em 1931, depois de Gorki ter intercedido por ele, e instalou-se em Paris com a sua mulher, onde morreu na pobreza em 10 de Março de 1937.



Escrito por Karla Lima às 22h19
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